Uma tarde com Bud Shank e João Donato
Tárik de Souza Jornal Musical - 29.03.07
"O pai da criança é o Donato. Transferi o problema para ele e a única coisa que faço nesse disco é tocar". Assim dizia o sax-alto Clifford "Bud" Shank, americano de Dayton, Ohio, nascido em 1926, citado na contracapa do disco do primeiro encontro dele com o pianista acreano, João Donato. Era 1965, a bossa nova no auge, e John William Hardy, o contracapista da gravação realizada no seleto selo Pacific Records, em Hollywood, ainda comparava Donato a Cole Porter (como autor) e Tomy Flanagan (como pianista). O disco saiu no Brasil, pela Elenco, de Aloísio de Oliveira, com a dupla e mais Rosinha de Valença (que participava ao violão) no título. Completava o grupo, o baixo de pau de Tião Netto e a bateria de Chico Batera. Tinha nove faixas, cinco de Donato, já descontado o entusiasmo do redator da ficha técnica - que atribuiu também a Donato uma inexistente parceria com Tom Jobim no "Samba do avião".
A dupla só voltou a reunir-se, quase quarenta anos, depois no Chivas Jazz Festival de 2004, para o qual o americano foi convidado. Entraram em estúdio dias 8 e 9 de maio daquele ano, com Luis Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria) para o novo encontro, só agora lançado em disco: Uma tarde com Bud Shank e João Donato (Biscoito Fino). Desta vez, das oito extensas faixas, só três levam a assinatura de Donato. As demais são standards da canção americana, com exceção do tema jazzístico "Blach orchid", do vibrafonista e percussionista Carl Tjader (1925-1982), americano descendente de suecos. Shank expõe o núcleo, com intervalos comentados pelo piano sinuoso de Donato e calços percussivos de Robertinho, pontuados por Luis Alves. A atmosfera é bem mais jazzística do que a do primeiro disco. Mas, "There will never be another you" (Mack Gordon/ Harry Warren) ganha uma levada bossa nova. E "Night and day" (Cole Porter), sai de sua síncopa natural, que detratores dizem ter inspirado a abertura do "Samba de uma nota só" (Jobim/Newton Mendonça) para entrar naquele vaivém cativante do piano de Donato.
Shank, que trabalhou com um ídolo do pianista brasileiro, o maestro Stan Kenton, tem seu estilo moldado no bebop de Charlie Parker, com pitacos de Benny Carter e Art Pepper. Em suas incursões nos temas de Donato ("Gaiolas abertas", "Joana" e o reprisado clássico do primeiro encontro, "Minha saudade", parceria de Donato e João Gilberto), soa menos redundante que o "cool" Stan Getz, o jazzista que mais se beneficiou das alianças com o movimento musical nativo. Uma tarde... exibe jazz & bossa em porções generosas. E integradas.