Donato plural
Nelson Gobbi Jornal do Brasil - 31.03.07
Impressiona a freqüência com que João Donato chega às prateleiras, dada a crise financeira que há alguns anos assombra o mercado fonográfico e atinge, sobretudo, estilos aos quais o público tem menos acesso, como a música instrumental. O pianista, compositor e arranjador acreano lançou dois CDs no ano passado (João Donato reencontra Maria Tita e João Donato e Paulo Moura: dois panos para manga) e um DVD em 2005 (Donatural). Em 2007, são três lançamentos: os CDs Uma tarde com Bud Shank e João Donato - gravado com o célebre saxofonista americano, que acaba de chegar às lojas - e O piano de João Donato, a ser lançado nos próximos dias. Além dos discos, está previsto para sair em julho o DVD com uma apresentação ao lado de Shank, registrada no Mistura Fina em novembro do ano passado, com o título (ainda provisório) João Donato e Bud Shank ao vivo no Rio de Janeiro, dirigido por Felipe Nepomuceno (Raça Filmes) e Renato Martins (Urca Filmes).
O disco com Shank foi gravado em maio de 2004, aproveitando a passagem do jazzista americano pelo Brasil para o Chivas Jazz Festival, e finalizado de forma independente por Donato e sua mulher, Ivone Belém.
– Eu e a Ivone tivemos de fazer tudo, sem saber direito como. Isso tornou o trabalho mais difícil do que se estivesse entregue a uma companhia - conta Donato.
O disco marca o festejado reencontro do pianista (hoje com 72 anos) e do saxofonista (com 80 anos), que haviam gravado há quase quatro décadas o disco Bud Shank and his brazilian friends (1968).
– De lá para cá, nossa música mudou pouco, apenas nossos estilos amadureceram, desenvolvemos mais nossa personalidade - avalia Donato. - Agora tivemos essa emoção de voltar a gravar juntos. O Bud me disse que nunca viajou tanto no tempo ao fazer um CD.
Em setembro, eles devem estar no mesmo palco para o show de lançamento do DVD.
– O documentário é mais do que um registro de show, pois pretende contar a história de uma amizade que se inicia na década de 60 e vai até os dias de hoje - explica o diretor Felipe Nepomuceno. - O show no Mistura é o fio condutor de entrevistas com Donato e Shank, além de outras pessoas fundamentais na trajetória desses ícones.
O músico, contudo, não mantém os olhos no retrovisor e está em troca constante com a nova geração de artistas brasileiros, que o tem como referência. Sua última participação em discos de jovens expoentes foi no CD Futurismo (2007), do trio Kassin + 2 (Kassin, Moreno Veloso e Domenico Lancelotti), na parceria com o titular do álbum, O seu lugar.
– Vou sempre que me convidam para um projeto e acabo fazendo novas amizades. Depois, chamo os jovens para participar dos meus discos - diz Donato, que tem planos com Ed Motta para um show em parceria. - Tem muita gente nova fazendo um bom trabalho, como o (seu filho) Donatinho, o Kassin e o Marcelo D2. Escuto alguma coisa de hip hop e adoro a mistura que D2 faz com samba.
Nem a produção constante ou o trânsito com os novos representantes da música brasileira impedem Donato de enxergar as dificuldades que a música instrumental enfrenta.
– O interesse pelo estilo é relativamente pequeno. O grande público é acostumado à música com letra, aquela coisa brega: "Meu amor me deixou e tal" - teoriza. - É preciso dar às pessoas acesso a obras de qualidade, através da TV e do rádio. Se os ouvintes se acostumam com o lixo que é tocado no rádio, com certeza gostarão de música de alto nível.
Na opinião do compositor, o público busca outras opções além das que são dadas pelos meios de comunicação, caso não esbarre em custos elevados.
– A música instrumental ocupa lugares caríssimos e fica inviável para quem não tem dinheiro sequer para arcar com as despesas de casa - opina. - No entanto, as apresentações gratuitas sempre enchem. Basta ver o Teatro Municipal aos domingos. Fica lotado de gente querendo ver balé e ópera.